A NRF 2026 marcou um ponto de inflexão definitivo para o varejo global. Direto de Nova York, onde acompanhei de perto as principais tendências do evento mais importante do setor, uma mensagem ficou cristalina: a inteligência artificial deixou de ser promessa e entrou de vez na fase de execução. O que antes era teoria e expectativa, agora se traduz em aplicações reais, resultados mensuráveis e decisões automatizadas que já estão transformando operações varejistas ao redor do mundo.

Neste primeiro episódio de 2026 do Por Dentro do Varejo, conversei com quatro especialistas que estiveram comigo na feira: Gustavo Vanucci, especialista em comportamento do consumidor; Edmilson Varejão, referência em IA aplicada à gestão de preços; Luis Lobão, professor e conselheiro em estratégia; e Edson Machado, Head de Inovação do IBMEC Brasil. Juntos, analisamos como essa nova fase da IA está redefinindo produtividade, personalização, automação e, principalmente, o equilíbrio entre tecnologia e o papel humano nos negócios.

Da promessa à prática: IA com ROI mensurável

Se a NRF 2025 trouxe o entusiasmo das possibilidades da inteligência artificial, a edição de 2026 apresentou algo ainda mais valioso para gestores varejistas: provas concretas de retorno sobre investimento. Edmilson Varejão foi direto ao ponto ao destacar essa evolução: a IA não é mais apenas uma tendência discutida em grandes corporações de tecnologia, mas uma realidade implementada por empresas de diversos portes e segmentos.

"Quando eu comparo o ano passado com esse ano, eu percebo que o ano passado tinha alguma informação de agentes de IA, mas muito focado na Google, Microsoft, Salesforce. E agora eu vejo que muitas outras empresas que prestam serviços mais específicos já estão embedando agentes de IA nas suas funcionalidades, nos seus programas" — Edmilson Varejão.

O especialista destacou que essa disseminação da tecnologia representa um marco importante: as empresas não investiriam recursos significativos se não esperassem retorno concreto. E os números já começam a aparecer. Casos reais apresentados na feira demonstram implementações bem-sucedidas, com métricas claras de ROI que vão além das promessas de eficiência.

Para o varejo brasileiro, essa maturidade da IA representa uma oportunidade estratégica. Soluções que antes pareciam exclusivas de grandes players globais agora estão acessíveis e, mais importante, comprovadamente eficazes. A plataforma Darwin que unifica dados de diferentes sistemas em tempo real, exemplifica essa tendência de trazer inteligência aplicada para a realidade operacional das lojas.

Agentes de IA: os novos membros da equipe

Uma das tendências mais inovadoras apresentadas na NRF 2026 é o conceito de agentes de IA: sistemas inteligentes capazes de executar tarefas repetitivas e, mais importante, tomar decisões baseadas em dados. Edmilson Varejão trouxe exemplos práticos dessa aplicação, especialmente na gestão de preços e promoções.

" Eu vi essa tendência no pricing, algumas decisões sendo tomadas pela IA. Um exemplo aqui, bem rápido, é promoções: escolher produtos que vão ser promocionados em algum contexto” — Edmilson Varejão

Edson Machado, do IBMEC Brasil, trouxe uma perspectiva provocadora sobre essa transformação:

"Nós vamos ser a última geração de gestores que vai trabalhar só com equipes humanas."  —  Edson Machado

Essa afirmação, longe de ser alarmista, reflete uma realidade que já está se consolidando: as equipes do futuro serão híbridas, combinando profissionais humanos com agentes de IA especializados.

A grande questão não é se essa mudança vai acontecer, mas como os gestores vão se preparar para liderar nesse novo contexto. O letramento em IA, ou seja, a capacidade de entender, utilizar e extrair valor dessas ferramentas, deixou de ser um diferencial para se tornar uma competência essencial.

Personalização real: entendendo o comportamento do consumidor

Gustavo Vanucci trouxe uma perspectiva fundamental sobre como a IA está sendo aplicada para resolver um dos maiores desafios do varejo: entender profundamente o comportamento do consumidor e personalizar experiências de forma escalável.

"Eles estão utilizando ela (IA) principalmente para entender o comportamento do consumidor, saber a diferença entre as gerações e conseguir personalizar de como vender mais utilizando a IA para captar esses dados, analisar esses dados e principalmente apoiar o processo de decisão" — Gustavo Vannucci.

O especialista foi além da ideia superficial de hiperpersonalização, apontando para algo mais estratégico: estar presente na mente do consumidor no momento crítico da decisão de compra.

Quando um cliente decide comprar um produto, duas perguntas surgem: em qual loja comprar e qual marca escolher. A IA permite que varejistas estejam posicionados de forma relevante nessas duas dimensões.

Essa integração entre marca, varejo e experiência do consumidor, seja no ambiente digital ou físico, representa a verdadeira personalização. Não se trata apenas de recomendar produtos, mas de facilitar toda a jornada de compra, removendo atritos e criando conexões genuínas.

Produtividade e eficiência: o novo foco operacional

Luis Lobão identificou uma mudança de tom importante na NRF 2026:

"Eu estou vendo a NRF mais madura esse ano, no sentido de menos promessas e um olhar mais para as responsabilidades dessa nova fase do varejo. O varejo começa a olhar a produtividade."  — Luis Lobão

Essa maturidade se reflete na forma como as empresas estão abordando a tecnologia. Não basta mais implementar soluções inovadoras; é preciso demonstrar como elas contribuem para a eficiência operacional e para os resultados financeiros. O conceito de "The Next Now" : menos futuro, mais presente, resume bem essa filosofia.

Lobão destacou ainda a importância crescente dos ecossistemas de negócio, tema que ganhou destaque em palestras como a de Fred Trajano, CEO do Magazine Luiza.

"Muita atenção no tema ecossistema nos próximos anos. Eu estou voltando da China e vi que os grandes negócios, as grandes empresas, elas se moldam a partir dessas combinações, correlações com outros stakeholders" — Luis Lobão

Para o varejo brasileiro, essa visão de ecossistemas é particularmente relevante. A capacidade de integrar diferentes sistemas, parceiros e tecnologias, como a plataforma Darwin faz ao conectar dados de PDV, câmeras e sensores será determinante para a competitividade.

O equilíbrio entre tecnologia e humanização

Talvez o tema mais recorrente e importante da NRF 2026 tenha sido a discussão sobre o papel do humano em um varejo cada vez mais tecnológico.

"Qual vai ser o papel do humano, o papel da tecnologia e o conceito da ambidestria de o gestor ter que olhar esses dois lados, procurar uma eficiência com o IA sem perder a humanização."  — Edmilson Varejão

Edson Machado reforçou essa perspectiva ao analisar casos práticos apresentados na feira:

"Não é a IA substituindo o humano, mas é a IA tornando o humano mais eficiente. Na verdade, eu acho que a gente vai ser mais humano, porque essa vai ser a diferença." — Edson Machado

Os exemplos do Walmart e da PepsiCo ilustram bem essa abordagem. Ambas as empresas implementaram IA não para eliminar postos de trabalho, mas para capacitar suas equipes de vendas e operações, permitindo que se concentrem em atividades de maior valor agregado, aquelas que exigem criatividade, empatia e julgamento humano.

Quando a IA se tornar commodity (e esse momento está mais próximo do que imaginamos), o diferencial competitivo voltará a ser humano: a capacidade de treinar equipes, criar culturas organizacionais fortes e desenvolver relacionamentos genuínos com clientes.

Preparando pessoas para a nova realidade

Edson Machado trouxe um alerta fundamental para gestores e instituições de ensino:

"Se não houver um letramento, se não houver uma capacitação, tanto de quem vai usar a IA como de quem vai absorver a IA no seu dia a dia, nós vamos ter um gap muito grande." — Edson Machado

Essa lacuna de competências representa tanto um risco quanto uma oportunidade. Empresas que investirem agora na capacitação de suas equipes terão uma vantagem competitiva significativa. Não se trata apenas de ensinar a usar ferramentas específicas, mas de desenvolver uma mentalidade orientada por dados e confortável com a colaboração entre humanos e máquinas.

O IBMEC Brasil, sob a liderança de Machado, já está endereçando essa necessidade, reconhecendo que a formação de profissionais para o varejo do futuro precisa incluir esse letramento em IA como componente essencial.

Conclusão: o momento de agir é agora

A NRF 2026 deixou claro que o varejo está em um momento de transição acelerada.

A inteligência artificial não é mais uma tecnologia do futuro. É uma ferramenta do presente, com aplicações práticas e resultados mensuráveis. As empresas que estão liderando essa transformação não são necessariamente as maiores, mas aquelas que souberam equilibrar inovação tecnológica com foco em pessoas e resultados.

Para gestores varejistas brasileiros, os principais aprendizados são claros:

  • Invista em soluções que demonstrem ROI concreto,
  • Prepare suas equipes para trabalhar com agentes de IA,
  • Mantenha o foco na experiência do cliente sem perder a eficiência operacional,
  • Acima de tudo, não espere a tecnologia se tornar perfeita para começar. A maturidade vem da prática.

O varejo que vencerá nos próximos anos será aquele que conseguir integrar tecnologia de ponta com profundo conhecimento do comportamento humano, tanto de clientes quanto de colaboradores. É exatamente nessa intersecção que a Inwave atua, conectando dados, dispositivos e equipes em tempo real para gerar decisões mais inteligentes e operações mais eficientes.

A NRF 2026 não trouxe apenas tendências. Trouxe um chamado à ação. E esse chamado é: o futuro do varejo está sendo construído agora, e você precisa decidir se vai observar ou participar dessa transformação.

Sobre o Por Dentro do Varejo: Podcast especializado em tendências, estratégias e inovações para o setor varejista brasileiro, apresentado por Gustavo Carrer. Novos episódios a cada duas semanas nas principais plataformas de áudio.