Quando penso em 2026, a primeira coisa que vem à cabeça não é só a Copa do Mundo ou as eleições. É a combinação de todos esses eventos com um calendário de feriados acima da média, criando um cenário que vai exigir muito mais do varejista do que o habitual. E é exatamente sobre isso que precisamos conversar agora, antes que o ano chegue e nos pegue de surpresa.

Para entender o que está por vir, trouxemos ao PDV alguém que vive na interseção entre dados, supply chain e varejo: Christiane Cruz Citrângulo, Diretora-executiva de Supply Chain e Execução do Varejo da Neogrid. Com passagens pelo Carrefour, GPA, Unilever e Nestlé, e ampla experiência dos dois lados do balcão, Christiane apresentou os resultados de uma pesquisa exclusiva realizada em parceria com a Opinion Box sobre o comportamento do consumidor brasileiro em 2026.

O que ela trouxe para a nossa conversa foi revelador. Não se trata apenas de planejar promoções sazonais. Trata-se de entender um consumidor mais racional, mais endividado e, ao mesmo tempo, disposto a consumir, desde que o produto esteja disponível, no lugar certo, na hora certa.

Por que o calendário do varejo 2026 será diferente para a operação das lojas?

A resposta curta: porque nunca tivemos Copa do Mundo, eleições e um volume recorde de feriados no mesmo ano. Mas a resposta que importa para quem opera uma loja vai além do óbvio.

Christiane explicou que o varejo está acostumado a se planejar para sazonalidades previsíveis: Dia das Mães, Black Friday, Natal... Esses eventos têm histórico, têm dados anteriores, têm playbook. Copa do Mundo e eleições são diferentes: não são anuais, não seguem o mesmo padrão e exigem uma leitura mais cuidadosa da demanda.

Mas o ponto que me chamou mais atenção foi o dos feriados prolongados e fragmentados ao longo do calendário. Eles criam o que Christiane chamou de "micro picos de consumo", ou seja, momentos de demanda concentrada em categorias específicas e, principalmente, em regiões específicas. Litoral, interior, destinos de viagem: o consumo vai acontecer, mas o CEP muda.

"2026 separa o varejo não necessariamente entre os grandes e os pequenos, mas entre os rápidos e os lentos. Quem ganha é quem consegue ler o que está acontecendo e reagir com agilidade." — Christiane Citrângulo, Neogrid

Essa frase resume bem o que está em jogo. Empresas com visibilidade de dados, integração entre áreas e capacidade de ajustar sortimento e abastecimento em tempo real têm uma vantagem competitiva real. As que operam no modo reativo vão deixar dinheiro na mesa.

Como o comportamento do consumidor pode afetar as vendas em 2026?

A pesquisa da Neogrid trouxe números que ajudam a tangibilizar o cenário. Três em cada quatro brasileiros pretendem cortar custos e estão mais sensíveis a preço, mas isso não significa que estão buscando o mais barato. Estão buscando o melhor custo-benefício.

Perguntei à Christiane sobre quais categorias e formatos tendem a capturar melhor esses micro picos. A resposta foi clara: supermercados com foco em abastecimento e conveniência saem na frente. Bebidas, alimentos, perecíveis, itens temáticos da Copa:  todas categorias com alto potencial de margem se bem abastecidas. Farmácias e varejistas localizados em destinos de veraneio também aparecem como grandes beneficiados.

Outro dado que me surpreendeu: 64% dos consumidores pretendem acompanhar os jogos da seleção, com aumento esperado de demanda em alimentos, bebidas e produtos esportivos. E 55% das famílias apontam redução de renda nos feriados por causa dos dias úteis a menos, o que cria um consumidor mais impulsivo em alguns momentos e mais contido em outros.

"O consumidor está mais atento. Tirar a fricção nesse momento é o segredo para converter a venda e deixar o shopper satisfeito."  — Christiane Citrângulo, Neogrid

Aqui está o ponto central: a disponibilidade de produto deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a ser um diferencial competitivo.

Como evitar ruptura no varejo durante o calendário de 2026?

Esse foi um dos pontos mais estratégicos da conversa. Christiane tem uma visão privilegiada: trabalhou nos dois lados da mesa, varejo e indústria, e hoje está numa empresa de tecnologia que conecta os dois. O diagnóstico que ela trouxe é preciso.

As empresas, individualmente, estão evoluindo bem em tecnologia, dados e inteligência. O problema está na colaboração entre elas. O índice de ruptura no varejo brasileiro ainda passa de 10%, e grande parte disso acontece porque o Joint Business Plan (JBP) não está conectado ao Joint Supply Plan (JSP).

Em outras palavras: você planeja crescer, mas não planeja abastecer.

"O JBP de quanto eu quero crescer só funciona se o seu JSP estiver bem acordado. Se não estiver, o sell-out não vai acontecer na plenitude." — Christiane Citrângulo, Neogrid

É justamente nesse contexto que soluções de tecnologia para o varejo ganham relevância. Plataformas que integram dados de estoque, demanda e execução em tempo real permitem decisões mais rápidas e mais precisas.

Na Inwave, por exemplo, a plataforma Darwin foi desenvolvida exatamente para eliminar o que chamamos de ponto cego operacional: a desconexão entre o que acontece na loja e a capacidade de agir sobre isso em tempo real. Em 2026, com tantas variáveis em jogo, essa visibilidade não é luxo: é necessidade.

Como o varejo pode se preparar para o calendário de 2026?

Três aprendizados práticos para levar desta conversa com Christiane:

1. O consumo vai acontecer, mas em novos lugares

Feriados prolongados criam migração de demanda. Lojas em destinos de veraneio e interior precisam planejar abastecimento diferenciado com antecedência.

2. Disponibilidade será o novo diferencial competitivo

Com preços cada vez mais próximos entre formatos, o consumidor compra de quem entrega conveniência e disponibilidade.

3. Varejo rápido vai superar varejo lento

A capacidade de interpretar dados e reagir rapidamente será decisiva para capturar os micro picos de consumo.

Em um cenário de demanda fragmentada, consumidores mais sensíveis e eventos que mudam o fluxo de consumo pelo país, antecipação deixa de ser vantagem competitiva e passa a ser requisito básico. Para aprofundar essa análise e entender como transformar esse calendário em oportunidade, vale ouvir o episódio completo do PDV com Christiane Citrângulo.