Prevenção de perdas é um tema que, durante muito tempo, esteve associado quase exclusivamente a furtos, segurança e controle. Mas uma conversa recente que tive com Renato Lopes, especialista em prevenção de perdas e criador de conteúdo sobre a rotina dos supermercados, reforçou uma percepção que considero cada vez mais importante: prevenir perdas é, antes de tudo, cuidar da operação como um todo.

No episódio 158 do podcast PDV, conversamos sobre os bastidores do supermercado, comportamento humano, tecnologia, monitoramento e os desafios que o varejo enfrenta para proteger margem e, ao mesmo tempo, tornar suas operações mais eficientes.

Saí da conversa com alguns insights que considero especialmente relevantes para quem trabalha com operações, prevenção de perdas, segurança ou gestão de supermercados.

Prevenção de perdas vai muito além do combate ao furto

Uma das primeiras provocações que Renato trouxe foi sobre a própria definição de prevenção de perdas. Quando uma empresa concentra seus esforços exclusivamente no combate ao furto, ela pode estar olhando para uma parcela pequena do problema e deixando de enxergar perdas muito maiores que acontecem nos bastidores.

Recebimento, armazenamento, estoque, processos internos, frente de caixa e execução operacional também podem gerar perdas significativas. E, em um negócio de margens apertadas como o varejo alimentar, pequenos desvios acumulados podem representar um impacto importante no resultado.

“Uma empresa que tem um departamento de prevenção apenas para cuidar do furto [...] deixa muito dinheiro em cima da mesa.” — Renato Lopes

Essa mudança de perspectiva é fundamental. A pergunta deixa de ser apenas “como evitar furtos?” e passa a ser “onde estão acontecendo as perdas e por que elas estão acontecendo?”

É uma abordagem muito mais ampla e estratégica.

Cultura de prevenção de perdas depende de pessoas

Outro ponto da conversa que me chamou bastante atenção foi a relação entre prevenção de perdas e comportamento humano.

Processos podem ser desenhados, documentados e comunicados. Mas, se as pessoas que estão na operação não entenderem o motivo pelo qual aquele processo existe, sua execução dificilmente será consistente.

“As pessoas que fazem parte do negócio, as pessoas que colocam a mão na massa, elas precisam do motivo, elas precisam entender o porquê.” — Renato Lopes

Essa é uma lição que ultrapassa a área de prevenção de perdas. Toda mudança operacional depende de comunicação, treinamento, convencimento e engajamento.

Por isso, acredito que a evolução da prevenção passa também por uma mudança no perfil dos profissionais da área. Conhecimento técnico continua sendo essencial, mas habilidades como comunicação, negociação, inteligência emocional e capacidade de engajar equipes ganham cada vez mais importância.

No fim, uma operação pode ter o melhor processo do mundo. Se ninguém o executar corretamente, ele não produz resultado.

Como justificar o investimento em prevenção de perdas?

Essa é uma pergunta bastante comum: qual é o retorno de investir em prevenção de perdas?

A resposta passa por entender que reduzir perdas é uma das formas de melhorar a rentabilidade que estão diretamente sob controle do varejista.

Aumentar faturamento depende de uma série de fatores: concorrência, economia, comportamento do consumidor, localização, sazonalidade e poder de compra. Já a redução de perdas está muito mais relacionada à qualidade dos processos internos e à capacidade de identificar e corrigir desvios.

E existe outro ponto importante: algumas perdas são inerentes à operação. Produtos perecíveis vão vencer, frutas e verduras vão sofrer quebra, determinados produtos terão avarias.

O objetivo, portanto, não é imaginar uma operação sem nenhuma perda, mas entender, medir e reduzir aquilo que pode ser evitado.

“A prevenção de perdas está totalmente na mão de quem está operando o negócio.” — Renato Lopes

Para mim, essa é uma das principais razões para a prevenção deixar de ser vista como uma área exclusivamente de segurança e passar a ocupar um espaço mais estratégico dentro da gestão operacional.

Tecnologia para prevenção de perdas: menos feeling, mais inteligência

Se pessoas são fundamentais, tecnologia também passou a ocupar um papel indispensável.

Durante a entrevista, perguntei ao Renato quais tecnologias ele considera prioritárias para uma operação de varejo. A primeira resposta foi o reconhecimento facial integrado a uma central de monitoramento.

A lógica é simples: uma loja recebe centenas ou milhares de pessoas diariamente. Depender exclusivamente da percepção de um operador para identificar alguém que já tenha cometido um furto é pouco escalável.

Com uma solução tecnológica, um evento pode gerar um registro, alimentar uma base de informações e permitir que a equipe seja alertada quando determinada pessoa retornar à loja.

Mas o ponto mais interessante é que tecnologia não precisa significar mais intervenção humana; ela pode significar intervenção mais inteligente.

Em vez de esperar o furto acontecer para agir, o monitoramento pode contribuir para a inibição e para uma atuação preventiva.

Essa mesma lógica pode ser aplicada às antenas antifurto. Quando um disparo é associado às imagens do momento da ocorrência, a equipe passa a ter muito mais contexto para analisar o evento, identificar padrões e tomar decisões.

É uma evolução importante: sair do “alguém corre para ver o que aconteceu” para um modelo em que evento, imagem, informação e análise estão conectados.

Auditoria de frente de caixa: um ponto crítico da operação

Outro destaque da conversa foi a frente de caixa.

Durante muito tempo, o varejo investiu em controles rigorosos no recebimento, armazenamento e estoque, mas tinha menos visibilidade sobre o que acontecia no momento da venda.

E a frente de caixa concentra uma série de possibilidades de erro ou desvio: produtos que deixam de ser registrados, cancelamentos, operações incorretas, diferenças de procedimento e, naturalmente, situações de má-fé.

Por isso, tecnologias capazes de associar as transações às imagens e permitir auditoria em tempo real representam uma mudança importante na gestão.

Esse é um dos espaços em que soluções como a plataforma Darwin, da Inwave, fazem sentido dentro de uma estratégia maior: conectar imagens, dados e processos para que o varejista não precise descobrir um problema apenas depois que ele apareceu no inventário ou no resultado.

Mais do que simplesmente gravar imagens, a oportunidade está em transformar imagens em informação para a tomada de decisão.

Monitoramento centralizado e a nova regulamentação de segurança privada

A conversa também passou por um tema que merece atenção especial dos supermercados: as mudanças regulatórias trazidas pela Lei nº 14.967/2024, o Estatuto da Segurança Privada, e sua regulamentação pelo Decreto nº 13.012/2026.

A nova regulamentação estabelece regras para autorização, controle e fiscalização dos serviços de segurança privada. Entre as atividades previstas está o monitoramento eletrônico.

Esse cenário traz uma camada adicional de atenção para os varejistas que trabalham com centrais de monitoramento, especialmente quando há contratação de empresas terceirizadas.

A própria Polícia Federal já disponibilizou orientações específicas sobre autorização de funcionamento para empresas de monitoramento de sistemas eletrônicos e rastreamento.

É um tema que ainda exige acompanhamento próximo, principalmente durante o período de adequação. Para o varejo, mais do que simplesmente adquirir tecnologia, será importante entender quem opera o monitoramento, qual serviço está sendo prestado, quais responsabilidades estão envolvidas e se os parceiros contratados estão devidamente regularizados.

O futuro da prevenção de perdas é mais estratégico

Ao terminar essa conversa, fiquei com uma conclusão bastante clara: a prevenção de perdas está deixando de ser uma atividade essencialmente reativa.

Ela está se tornando uma disciplina cada vez mais conectada à operação, à tecnologia, aos dados e, principalmente, às pessoas.

Reconhecimento facial, monitoramento centralizado, integração entre CFTV e sistemas antifurto, auditoria de frente de caixa e inteligência artificial não substituem o profissional de prevenção. Ao contrário: dão a ele melhores informações para decidir onde atuar e como atuar.

“Hoje, a prevenção, ela caminha para a estratégia. Não adianta mais você querer depender do feeling das pessoas.” — Renato Lopes

Para mim, essa frase resume muito bem o momento que estamos vivendo.

O varejo continuará precisando de pessoas preparadas, processos bem definidos e uma cultura de prevenção. Mas, cada vez mais, precisará também de tecnologia capaz de conectar os sinais que acontecem diariamente dentro das lojas.

Quando dados, imagens e processos passam a conversar entre si, o varejista deixa de apenas reagir às perdas e começa a entender a operação em tempo real para agir antes que o problema se transforme em prejuízo.

É justamente nessa combinação entre pessoas, processos e tecnologia que vejo um dos caminhos mais promissores para tornar a prevenção de perdas mais estratégica e a operação de varejo, mais eficiente.