Estar na EuroShop é sempre uma experiência que recalibra a visão de qualquer profissional do varejo. A feira, realizada a cada três anos em Düsseldorf, na Alemanha, é o maior evento mundial dedicado ao setor e esta edição de 2026 teve um peso ainda maior: 60 anos de história reunindo o que há de mais relevante em tecnologia, design e inovação para o ponto de venda.
Tive o privilégio de estar lá e, ao longo dos dias de evento, conversei com quatro profissionais brasileiros que acompanharam a feira de perto e trouxeram perspectivas complementares sobre o que vem por aí. Cada um com um olhar diferente: tecnologia de gestão, arquitetura, visual merchandising e investimento, mas todos apontando para uma mesma direção: o varejo físico está se reinventando com velocidade e inteligência.
Neste post, reúno os principais pontos dessas conversas com Andre Faria, CEO da Bluesoft Sistemas; Anelise Campoi, arquiteta e fundadora da Acampoi Arquitetura; Endrigo Pontes, fundador da Vitrail Visual Merchandising; e Juan Agudo, sócio da DM e investidor com olhar atento ao mercado varejista.
Como os agentes de inteligência artificial estão mudando a tomada de decisão no varejo?
A inteligência artificial foi, sem dúvida, o tema que mais dominou os corredores da EuroShop 2026. Mas o que me chamou a atenção nas conversas que tive foi a mudança de tom: saímos do debate sobre o que a IA pode fazer no futuro e entramos em discussões práticas sobre o que ela já faz hoje.
Andre Faria, da Bluesoft, foi direto ao ponto quando perguntei como um varejista pode usar agentes de IA de forma concreta. Ele me explicou que, no dia a dia de qualquer rede, há pessoas dedicadas a analisar relatórios de estoque, cobertura, margem e a tomar decisões a partir disso, como por exemplo, o que comprar, o que colocar em oferta, o que transferir entre lojas... Os agentes de IA fazem exatamente esse trabalho de raciocínio sobre os dados, mas com uma capacidade de escala e velocidade que nenhuma equipe humana consegue replicar.
"Os agentes conseguem raciocinar, pensar em cima desses dados e já fazer recomendações, ou até mesmo executar determinadas ações para você. E vão aprendendo a estratégia da sua rede, de cada uma das suas lojas, para que você não precise todas as vezes tomar as mesmas decisões." — Andre Faria, CEO da Bluesoft
O ponto mais relevante que Andre trouxe é que esses agentes aprendem com as decisões do próprio varejista. Uma rede que privilegia margem receberá sugestões diferentes de outra que prioriza giro. A inteligência se adapta à estratégia do negócio, e não o contrário.
Perguntei a Andre se concordava com a ideia, bastante debatida na NRF deste ano, de que seremos a última geração a ter humanos reportando para humanos. A resposta foi equilibrada e muito sensata:
"O humano é cada vez mais importante num mundo tão artificial. O que é importante? Aprender sobre essa tecnologia, adotar a tecnologia, mas, sobretudo, estar pronto para mudar, estar com a cabeça aberta para que você e a sua empresa possam aproveitar essas tecnologias para gerar diferencial competitivo." — Andre Faria, CEO da Bluesoft
Por que o arquiteto de varejo precisa entender de tecnologia tanto quanto de estética?
Uma das conversas que mais me surpreendeu foi com Anelise Campoi, da Acampoi Arquitetura, escritório com 16 anos de atuação em grandes marcas do varejo brasileiro, de Dolce & Gabbana à Sicredi, passando por Fini e grandes magazines.
Anelise me contou que o que mais a impactou na EuroShop 2026 foi a integração entre tecnologia e design de loja, não como elementos separados, mas como um único projeto estratégico. O exemplo que ela deu foi preciso: iluminação inteligente mapeando a área de pães em um supermercado, identificando o que saiu e o que ainda está disponível, ajustando a temperatura de cor para valorizar o produto e ativando automaticamente uma promoção no fim do dia quando o item ainda não foi vendido. Tudo isso embutido no mobiliário, invisível para o cliente.
"A tecnologia, muitas vezes, ela não está aparente. Ela é invisível para o cliente. Mas ela traz eficiência. É isso no design estratégico que a gente fala." — Anelise Campoi, fundadora da Acampoi Arquitetura
Essa visão ressoa diretamente com o que fazemos na Inwave. Quando câmeras, sensores e sistemas de monitoramento são integrados ao projeto da loja, o resultado é uma operação mais inteligente e uma experiência de compra mais fluida. A tecnologia que não aparece é, muitas vezes, a que mais trabalha.
Anelise também destacou a evolução dos materiais: revestimentos que imitam pedra, madeira e metal com altíssima qualidade, sem extrair recursos naturais, com muito mais facilidade de troca e manutenção. Para ela, sustentabilidade e flexibilidade caminham juntas no design de loja contemporâneo.
Qual o papel do visual merchandising numa era de dados e experiências imersivas?
Endrigo Pontes, da Vitrail, está na sua quinta EuroShop. Poucos profissionais no Brasil têm uma visão tão histórica e ao mesmo tempo tão atualizada sobre o que acontece no ponto de venda físico. Perguntei o que mais o havia marcado nesta edição.
A primeira resposta foi inesperada: manequins. Mas não qualquer manequim: a evolução dos materiais e, principalmente, a representação de corpos diversos, conectada ao universo da geração Z e à pluralidade de identidades que esse público carrega. Para Endrigo, o manequim como objeto de VM está finalmente se atualizando para refletir o consumidor real.
Mas o que mais me chamou a atenção foi a análise que ele fez de duas lojas visitadas em Düsseldorf. A primeira, a Miniso - marca japonesa com uma loja toda pensada para o público do TikTok, com áreas instagramáveis, collabs com a Disney e um sistema de exposição de produtos que mistura vitrine e gôndola de forma muito inteligente. A segunda, a Live Lab Studio, um espaço cultural que vende produtos de luxo com curadoria rigorosa, abre apenas três dias por semana e trata cada peça como se fosse uma obra de arte.
"Eles não chamam de loja, eles chamam de espaço cultural. Lá também tem exposição de arte, tem evento, tem rodas de conversa para falar sobre design, sobre sustentabilidade. Foi uma loja que me chamou a atenção, ela vai na contramão desse consumo acelerado." — Endrigo Pontes, fundador da Vitrail
Endrigo também destacou o avanço da tecnologia aplicada ao VM: sistemas que rastreiam a interação do cliente com o produto: não apenas se ele comprou, mas se ele pegou, tocou, considerou. O paralelo com o e-commerce é inevitável: o abandono de carrinho físico, aquele momento em que o cliente pega o produto e devolve à prateleira, agora gera dados. E esses dados são ouro para quem trabalha com planograma, gerenciamento de categoria e posicionamento de produto.
Como o CEO varejista deve escolher onde investir em tecnologia agora?
Juan Agudo tem uma posição privilegiada: como empreendedor, investidor e sócio da DM, empresa de tecnologia e serviços financeiros para o varejo, ele conversa diariamente com CEOs de redes varejistas de diferentes portes. Perguntei diretamente: o que está na cabeça desse executivo hoje?
A resposta foi sem rodeios. O CEO está angustiado. Endividamento crescente, pressão por resultado e uma enxurrada de soluções tecnológicas que prometem transformar o negócio. O risco real é a paralisia diante de tantas opções.
"Em vez de reinventar a roda, o ideal é pegar as métricas principais do negócio e buscar um especialista para cada uma delas. Às vezes ele é meio econômico, mas o ROI é monstro. Se ele puder passar essa barreira psicológica, tem muita coisa emergente boa, pendurada no ERP, que consegue gerar muito resultado, muito rápido." — Juan Agudo, sócio da DM
Juan foi generoso ao falar sobre a Inwave e deixou claro que sua visão sobre o valor das nossas soluções parte de uma análise objetiva de ROI. Para ele, a proposta de valor se resume a dois vetores que qualquer CEO entende: corte de custo com produtividade e redução de perdas por roubo e falhas operacionais.
Sua recomendação final para qualquer varejista que está avaliando investir em tecnologia foi simples e direta: fale com outros varejistas que já usam a solução. A melhor referência é um par com o mesmo DNA de negócio.
Três aprendizados práticos da EuroShop 2026
- Agentes de IA não são ficção científica:
Os agentes são ferramentas de gestão disponíveis agora. Se você tem alguém na sua equipe analisando relatórios e tomando decisões operacionais repetitivas, essa função está sendo transformada. O caminho não é resistir, mas aprender a dirigir essa tecnologia com a sua estratégia no volante. - Design e tecnologia precisam ser projetados juntos.
Lojas que integram iluminação inteligente, sensores e sistemas de monitoramento desde o projeto têm uma operação mais eficiente e uma experiência de compra superior. A tecnologia invisível é a que mais entrega resultado. - Foco e especialização vencem a paralisia.
Diante de tantas opções tecnológicas, o CEO que escolhe as métricas mais críticas do seu negócio e busca o parceiro certo para cada uma delas avança mais rápido do que aquele que tenta resolver tudo de uma vez. ROI claro, parceiro confiável e referência de outros varejistas: esse é o caminho mais curto entre a angústia e o resultado.



